NOTÍCIAS
CRÍTICA: Mandy Gonzalez com Seth Rudetsky, Transmissão Online ✭✭✭
Publicado em
Por
julianeaves
Share
Julian Eaves analisa Mandy Gonzalez a atuar com Seth Rudetsky no mais recente concerto da Seth Online Concert Series.
The Seth Concert Series com Mandy Gonzalez e Seth Rudetsky
Online ao vivo no domingo, 25 de abril, com repetição na segunda-feira, 26 de abril
E assim lá chega mais um episódio. Esta série, que já anda no ar há meses, estabeleceu-se de tal forma no panorama virtual do teatro musical que agora está a fazer aquilo que o teatro deve fazer: está a fazer-nos perguntas. Vê-se: quanto mais vejo este espetáculo, mais me interrogo sobre os motivos que o impulsionam. Seth Rudetsky faz talk-shows de cabaré há muitos anos, muito antes destes atuais “tempos estranhos”. Desenvolveu uma certa maneira de fazer estas “coisas”, com convidados com quem muitas vezes já tinha trabalhado e, por vezes, com quem criou relações de longa duração; e, durante bastante tempo, o formato funcionou bem: desde que o convidado tenha uma ou duas boas histórias para contar e consiga “fazer” alguma coisa com este repertório centrado na Broadway em 90 minutos, tudo avança com a fluidez necessária.
E, no entanto. Acaba por surgir uma pequena dúvida insidiosa e — antes que se dê por isso — uma vozinha pergunta: “É só isto?…” As engrenagens giram em círculos cada vez mais apertados de um repertório demasiado familiar e previsível, os currículos “vida e obra” dos sucessivos convidados começam a parecer-se cada vez mais uns com os outros, e Seth parece um pouco sem saber o que fazer com um formato que, de forma quase impercetível mas gradual, vai perdendo energia.
Mandy Gonzalez talvez já tivesse um tema em marcha quando se lançou na sua própria versão do “Dat-da-dah-dah-daaahh!” de ‘Hamilton’, de Lin-Manuel Miranda (a canção pode ter outro título, mas eu vou sempre — e só — conhecê-la pelo refrão). Revolução? Crítica social? ‘Che Sara Sara’ (Jay Livingston e Ray Evans) recebeu um delicioso arranjo em slow blues, arrancando de Gonzalez sons roucos e profundamente sentidos. É o tipo de interpretação que — em tempos normais — bastaria para criar um número de cabaré arrebatador.
Só que estes estão longe de ser “tempos normais”. Uma grande interpretação pode seguir-se a outra, mas, se as canções puxam em direções diferentes, acabam por minar o efeito conjunto umas das outras. Embora suspeite que grande parte do impulso para pôr estes espetáculos online tenha vindo do fecho de teatros e de espaços de entretenimento público (em recintos fechados) provocado pelo Coronavírus, com a intenção de substituir aquilo de que o público sente falta — as canções, as vozes, o glamour, a coscuvilhice, a notoriedade e por aí fora — penso que esse objetivo pode estar a falhar o essencial. Não há mal nenhum nisso: é uma situação sem precedentes, para a qual ninguém foi cuidadosamente preparado. É-nos permitido falhar. Rudetsky, diga-se também, é um artista de uma acuidade e inteligência fenomenais, cujas dissecações de interpretações de números célebres do teatro musical são estudo obrigatório para quem ama esta forma. Ocasionalmente, vemos vislumbres disso nesta série, mas talvez os produtores o tenham demovido de entrar em “detalhe a mais”?
Só podemos especular. Seja como for, eu sinto falta desse lado do seu cérebro. Mas mesmo isso não é o que falta nestes concertos. Não. Penso que, depois de longa consideração, aquilo de que o público realmente sente falta, na ausência do teatro musical, não são as canções, nem as estrelas, mas as histórias. Sentem falta de narrativa. E o formato deste espetáculo não nos dá uma janela suficientemente ampla para essas narrativas que compense a falta da experiência teatral. Não é por acaso que uma das edições mais conseguidas foi a de Jackie Hoffman: a maior parte das canções desse episódio foi escrita por ela e — meu Deus — servidas em conjunto num cabaré, têm um impacto tremendo.
‘In These Shoes’, de Kirsty MacColl e Pete Glenister, abriu, contudo, uma janela para um território refrescantemente novo. Mas, ao ouvi-la, ficávamos a desejar vê-la em algum contexto para lá daquilo que significa para a intérprete que a canta. Haveria inúmeras maneiras de o fazer: há anos, na ITV, o formato ‘Song by Song by Sondheim’ conseguiu funcionar com sucesso para uma série de outros letristas — uma abordagem original, que nos levava ao coração do que o seu material quer dizer. As recordações dos intérpretes, por mais que efervesçam com a excitação e o nervosismo dos eventos ao vivo, raramente vão muito além disso. E a técnica de “disparar para todo o lado” deste programa, ao deixar que seja o cantor a definir o ambiente, conduz inevitavelmente a uma sensação considerável de “mesmice” no que acabam por apresentar.
Que outra coisa poderia explicar um desvio repentino para ‘Total Eclipse of the Heart’, de Jim Steinman (um êxito dos anos 80 com Bonnie Tyler, mais tarde enfiado à força no espetáculo da Broadway de 1997, ‘Dance of the Vampires’)? Sim, Gonzalez canta-o lindamente e Seth acompanha com muita sensibilidade: mas porquê ali? A que é que se relaciona? Se a única resposta a essa pergunta for “Gonzalez”, então será ela suficientemente cativante como personagem para nos segurar durante todo o espetáculo? Bem, em termos musico-dramáticos, a resposta seria “Sim, SE houver o suficiente em jogo”. Então, o que está em jogo neste espetáculo? E a resposta é: não muito. Na verdade, estas participações parecem sobretudo lembrar-nos da existência de atores e cantores que simplesmente não estão muito visíveis ao público em mais lado nenhum neste momento. É um objetivo meritório, claro, mas não é necessariamente uma base sólida para construir uma longa sequência de concertos.
Seguiu-se ‘Breathe’, de ‘In The Heights’, de Lin-Manuel Miranda, que foi interpretada de forma bastante bonita, mas quem sabe o que quer que seja sobre a “história” que ela ajuda a contar? Ou quem é Lin-Manuel Miranda e o que o preocupa? Mais uma vez, são questões importantes que um programa destes evita. E começo a sentir-lhes falta. Muita. Especialmente quando mais uma passagem por ‘Defying Gravity’ (Schwarz, ‘Wicked’) soa encantadora, mas ainda assim consegue parecer feita de chumbo. Para os fãs, porém, ‘Born To Run’, de Bruce Springsteen, teve um momento eletrizante, mas porquê segui-la com ‘Satisfied’, de ‘Hamilton’? Se ao menos houvesse forma de um curador (ou diretor?) moldar todo este programa num conjunto mais coeso? Uma grande artista como Mandy Gonzalez merece mesmo o melhor.
Receba o melhor do teatro britânico diretamente na sua caixa de entrada
Seja o primeiro a garantir os melhores ingressos, ofertas exclusivas e as últimas notícias do West End.
Você pode cancelar a inscrição a qualquer momento. Política de privacidade