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DESTAQUE: Tecendo O Marido de Vime
Publicado em
24 de março de 2022
Por
editorial
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Rhys Jennings fala sobre levar o novo musical The Wicker Husband ao palco. Em cena no Watermill Theatre, em Newbury, até 26 de março, montar este novo musical britânico não foi, de todo, isento de desafios.
ERA UMA VEZ UM VIMEIRO
“Querida Ursula,” dizia o meu email. “Recentemente deparei-me com o teu conto, The Wicker Husband, e tive esta sensação maravilhosa... como entrar numa sala sem indicação e encontrar exactamente aquilo que procuramos.”
Era setembro de 2011, mas ainda me lembro dessa emoção crua de descoberta. Ali estava uma história que parecia ao mesmo tempo antiga e fresca, épica e íntima. Para um texto tão curto, dizia imenso sobre a forma como nos tratamos uns aos outros. Eu sabia, de alguma maneira, que tinha de levar The Wicker Husband ao palco.
Felizmente, a resposta da Ursula foi peremptória: “É uma ideia. Usa-a, maltrata-a, dá-lhe pancada, vê o que sai daí.”
Onze anos depois, cá estamos nós num dos espaços de teatro musical mais prestigiados do país, a preparar a reposição deste espetáculo tão bonito. Que família construímos — e que aventura tem sido…
2022 - The Watermill Theatre
Geroge Maguire, Sebastian Charles (manipuladores do Wicker Husband) com Gemma Sutton (como Ugly Girl).
Foto: Helen Maybanks O NOSSO HOMEM DE VIME
Como todas as boas ideias, esta andou a boiar nas águas rasas durante algum tempo. De vez em quando, eu esboçava uma cena ou desenvolvia um passado para as personagens, mas a verdade é que não sabia por onde começar.
Era peixe graúdo. Eu precisava de ajuda para o puxar para bordo.
Partilhei The Wicker Husband com Charlotte Westenra, uma encenadora que admirava há muito. A resposta dela: “Eu teria muito mais interesse em trabalhar nisso do que nalguma treta grega velha e poeirenta. Mas não achas que devia ser um musical?”
Um musical? Interessante. Mas como?
The Wicker Husband ficou mais dois anos a ganhar pó, sem andamento, até que um dia eu andava em digressão num espetáculo infantil peculiar, com uma partitura diabólica e espirituosa de um tipo chamado Darren Clark. Entre uns copos a mais no The Rusty Bicycle, em Oxford, o Darren e eu descobrimos um amor mútuo por contos populares. Piquei-o com um em particular — algo que eu gostava bastante de adaptar, mas não conseguia perceber como. “Mas isto precisa de música, não achas?”
Algumas semanas depois, uma mensagem: “Yo dude, não me consegui conter. Já andei a escrever canções para isto.” Eu queria ouvir?
Novembro de 2013. Curvado sobre uma guitarra gasta, no estúdio pequeno e manhoso dele em Waterloo, o Darren começou a dedilhar. Tocou e foi-me guiando por um punhado de canções — rascunhos, na verdade, coisas a meio caminho — mas cheias de alegria e amor, de sagacidade e humor. Ele não tinha apenas sido inspirado — tinha mergulhado de coração, sem hesitar, na barriga da baleia.
Não me interpretem mal, eu ainda não fazia a mínima ideia do que estava a fazer! Mas isso já não importava. Porque, na Charlie e no Darren, eu tinha encontrado os meus aliados, e ambos estavam tão entusiasmados e encantados com esta história quanto eu.
2015 - The Unicorn Theatre
Workshops iniciais: Ashleigh Cheadle, Will Cousins, Maisie Turpie, Joshua LeClair, Mei Mac, Geri Allen, Rachel Selenius PÂNTANO A Charlie convenceu o Unicorn Theatre a emprestar-nos um estúdio durante uma semana. Às vezes é só isso que é preciso para pôr a coisa a mexer: um pouco de espaço e tempo. O nosso objetivo era explorar o mundo da história, desvendar a sua linguagem e descobrir para quem ela deveria ser contada.
Apresentámos uma candidatura ao Arts Council para financiar a contratação de atores e materiais. Não foi aprovada.
Determinados a aproveitar ao máximo o espaço gratuito que nos tinham dado com tanta generosidade, lançámos um apelo entre colaboradores e amigos: alguém nos podia dar uma semana, um dia, uma hora do seu tempo? Mais de quarenta criativos de todas as disciplinas — atores, músicos, cantores, bailarinos, marionetistas — passaram por lá ao longo dessa semana, e o que dali surgiu pareceu-nos ao mesmo tempo orgânico e verdadeiramente colaborativo.
Sabíamos que a marioneta fazia parte do seu vocabulário e, graças ao Little Angel’s Incubate Scheme, conseguimos explorar algumas ideias iniciais de marionetas. Chegámos à final do KSF Artists of Choice Award, fizemos um crowdfunding recebido com entusiasmo e também tivemos a nossa boa dose de rejeições pelo caminho: “demasiado grande”, “demasiado caro”. O habitual.
Sem a infraestrutura que nos apoiasse na criação de novos musicais, tivemos dificuldade em encontrar recursos (tempo, espaço, dinheiro) para fazer o trabalho dramatúrgico de que isto precisava. Em nosso auxílio surgiram convites de algumas das principais escolas de teatro do país para fazermos workshops do material com os seus estudantes. O Royal Welsh College of Music and Drama, a Guildhall e a Trinity Laban deram um passo em frente — e estaremos sempre gratos por isso.
Depois, em 2016, candidatámo-nos — e ganhámos — o primeiro Stiles and Drewe Mentorship Award.
2016 Novello Theatre
Rhys Jennings e Darren Clark a receberem o Stiles and Drew Mentorship Award de George Stiles e Anthony Drewe O CORAÇÃO DA TRAMA
Em palco no Novello Theatre, a apertar as mãos aos nossos novos mentores, George Stiles e Anthony Drewe, soubemos que este era um ponto de viragem. Mas nenhum de nós podia ter previsto o quão transformadora aquela vitória viria a ser. (Pensar que quase falhámos o prazo da candidatura por minutos!)
O nosso ano de mentoria começou com um retiro de escrita em França, com o George e o Ants por perto.
“Não acham que falta aqui uma canção, rapazes?”, diria o George e, poucas horas depois, o Darren serenateava-nos no pátio banhado de sol com um primeiro rascunho de seja lá o que fosse. Cada dia trazia uma pequena descoberta, um ponto do enredo cuidadosamente reencaixado ou um novo número entusiasmante.
O prémio de mentoria incluía dois ‘labs’, que nos deram a oportunidade de trabalhar com um elenco profissional. O feedback do público e do painel da indústria em ambos os labs foi indiscutivelmente construtivo, e as lições que aprendemos ao lado de atores daquele nível foram inestimáveis.
Este capítulo da nossa viagem culminou numa apresentação-showcase no The Other Palace.
A expectativa até esse dia foi diferente de tudo o que já tínhamos vivido, e a satisfação de apresentar The Wicker Husband, pela primeira vez, a um teatro cheio foi qualquer coisa!
2018 - Showcase no The Other Palace
Mark Aspinall, Rebecca Tehearn, Sebastian Torkia, Jamal Andreas, Roger Evans, Elexi Walker, Courtney Hows, Ruari Glasheen, Jon Whittem, Loren O'Dair, Anne-Marie Piazza, Tyrone Huntley, Clive Rowe, Charlotte Westenra, Ursula Wills, Rhys Jennings, Darren Clark, Geroge Stiles, Anthony Drewe
Foto: Samuel Black O OUTONO CAMINHA PARA O INVERNO
O showcase teve boa afluência e foi muito bem recebido. No rescaldo, formou-se uma onda de entusiasmo em torno de The Wicker Husband e conhecemos vários produtores interessados em montar uma produção completa.
Mas o Darren, a Charlie e eu estávamos unidos na nossa teimosia. A esta altura, já tínhamos aceite o nosso dever de cuidado para com esta história, este nosso filho. Tinha potencial para ser algo verdadeiramente arrebatador e, para nós, era tudo ou nada. Reduzir o elenco, diminuir a banda, contornar a marioneta — esses não eram compromissos que estivéssemos dispostos a fazer. Continuávamos a ser autores desconhecidos com uma história desconhecida, por isso a audácia deve ter assustado, mas deixámos claro que qualquer produtor que quisesse The Wicker Husband teria de ser incrivelmente corajoso.
Depois da emoção do ano anterior, parecia que tínhamos chegado a um impasse. Muitas noites sombrias foram passadas a ter pena de nós próprios, a suspirar para os nossos copos de cerveja vazios e a perguntar-nos porque é que os novos musicais britânicos eram uma aposta tão arriscada.
Entretanto, por impulso, inscrevemos The Wicker Husband num festival de teatro musical nos EUA. Como equipa de escrita britânica, sabíamos que só tínhamos uma hipótese pequena de passar, mas achámos que valia a pena tentar.
Quando recebi a chamada de Nova Iorque a oferecer-nos uma das oito cobiçadas vagas no festival, dei a primeira roda da minha vida adulta.
2018 - Showcase NAMT
New World Stages, Nova Iorque NUNCA SE VIU TAL COISA
A National Alliance for Musical Theatre é uma organização sem fins lucrativos dedicada a apoiar e desenvolver o teatro musical. O seu Festival anual de New Musicals atrai investidores, produtores e diretores artísticos de todo o mundo.
Cada equipa de escrita prepara um excerto de 45 minutos, apresentado duas vezes ao longo de dois dias. Tivemos a sorte de contar com um elenco excecionalmente talentoso, que ensaiou no meio de agendas cheias na Broadway. Ver com que entusiasmo atores e público reagiam ao nosso material foi uma alegria. Apesar do seu sabor tão britânico, demonstrou quão universal podia ser a história de The Wicker Husband.
A nossa experiência na NAMT também lançou luz sobre o quão cautelosos, londrino-cêntricos e excessivamente dependentes de equipas de escrita já estabelecidas nós somos no Reino Unido.
Não confiamos em histórias novas e, certamente, não confiamos no público para vir connosco por trilhos ainda não pisados. Ficámos espantados ao ouvir falar de inúmeros prémios, bolsas, retiros de escrita e oportunidades de investimento — todos dedicados a nutrir ideias inovadoras e novos talentos na escrita. Por lá, levam muito a sério o negócio dos novos musicais; faz parte do ADN cultural. Podíamos aprender uma coisa ou duas com essa atitude.
A receção à nossa apresentação no festival, e as inúmeras ligações que fizemos no rescaldo, foi esclarecedora. Mas, entre todos os produtores e companhias de teatro presentes de toda a América do Norte e mais além, houve um participante do festival que nos entusiasmou mais do que qualquer outro: Paul Hart.
https://youtu.be/KjP4K8LH4RM
EU FORNEÇO O VIME
O Diretor Artístico do Watermill estava no nosso radar há anos. Esteve no painel dos dois labs durante a nossa mentoria e, desde então, todos nós flertámos com a ideia de uma produção — o Paul incluído. Dar vida a The Wicker Husband num cenário tão bucólico, com os seus salgueiros e o rio serpenteante; que maravilhosamente meta.
Mas, apesar de ser o encaixe perfeito, The Wicker Husband também era um espetáculo grande e exigente; exigia muito planeamento cuidadoso e estratégico. Para ser honesto, quase tínhamos arrumado a ideia.
Por isso, quando o Paul voou para Nova Iorque para assistir à nossa apresentação na NAMT, pareceu aquele momento num filme do Richard Curtis em que o par romântico chega ao aeroporto mesmo a tempo. Não sabemos exatamente que cordelinhos o Paul teve de puxar — que feitiços lançou — mas, de alguma forma, milagrosamente, tudo se encaixou.
Março de 2020. O último dia de ensaios. Passei semanas a entrar e sair de várias salas no Watermill — a oferecer reescritas, a esgueirar-me para ver marionetas ganharem vida, a cruzar-me com atores nos corredores a debitar texto, a espreitar pelas janelas enquanto as coreografias eram montadas. Uma máquina linda. Teatro no seu melhor.
16 de março, 19h30. "Pessoal, obrigado a todos por terem vindo". Paul Hart está em cima do belíssimo cenário da Anna Kelsey, diante do nosso público de noite de imprensa. Diz-nos que o Primeiro-Ministro acabou de fazer um anúncio — embora este público não precise de ser informado; os telemóveis têm vibrado e apitado a noite toda. É o "conselho muito firme" do governo que todos os teatros devem fechar. O Watermill convida-nos a ficar e a desfrutar desta última apresentação.
E assim foi. Felizmente alheios a quanto tempo isto poderia durar, ou quando tudo passaria, o elenco e a equipa de The Wicker Husband subiram ao palco.
A TRAMA RECOMEÇA
Vamos ao Teatro porque adoramos ouvir histórias. Trabalhamos no Teatro porque adoramos contá-las. Os contadores de histórias anseiam pela emoção de conduzir o público para dentro do pântano. "Sigam-nos", cantamos, "nós sabemos o caminho".
Mas, muitas vezes, não sabemos o caminho de todo. Cambaleamos às cegas pela lama, na esperança de que haja algo mesmo para lá daquelas árvores. Mesmo atrás daquela porta.
Entretecer The Wicker Husband foi, por vezes, um pouco assim. Não houve um trilho bonito e arrumadinho a seguir; apenas uma série de saltos corajosos, desvios errados e ajudantes generosos.
Quando o espetáculo sofreu aquele golpe devastador em 2020, achei que era o fim. A nossa única hipótese. A perda foi... profunda. Sentei-me debaixo de um salgueiro verdadeiro, a poucos passos do teatro, e chorei. Perder um filho é uma coisa terrível.
Mas é preciso uma aldeia para criar uma criança e, quando finalmente levantei os olhos do meu luto, encontrei o Watermill, a Charlie, o Darren, os nossos mentores, amigos e companheiros — a nossa aldeia — todos decididos a contar a história. Não tem sido fácil, mas aqui estamos nós para a contar.
E aqui estás tu para a ouvir.
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